Uma Anatomia de Cláudio Assis
Premiado Brasil e mundo afora, o autor de “Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e, mais recentemente, “Febre do Rato”, tem me perturbado com um estranho sentimento de fascínio hesitante. Procuro não me deixar levar pela exuberante fotografia do mestre Walter Carvalho (“Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas”, “Central do Brasil”, “Madame Satã”) ou por sua “delicada” poética visual em “Febre do Rato”, ou mesmo tento deixar de me conquistar pelos temas ácidos, pelo olhar clínico, pelas personagens despidas de protótipos novelísticos criados acerca do povo e das cidades nordestinas. Tento contemplar todos os aspectos que me atraem na filmografia de Claudio Assis, mas com uma recorrente pulga atrás da orelha: algo se esconde por detrás da compreensão inicial que se tem destes filmes, ou melhor, algo que eles mesmos constroem de uma forma sempre dupla – uma negando a outra e ao mesmo tempo, coexistindo.
Desta forma, prefiro não buscar nessa “Anatomia” uma definição do estilo de Assis, ainda porque não o cabe a sua pequena e recente filmografia, mas tento expor uma indagação – e por isso também escrevo em tom pessoalista (talvez passe a fazê-lo mais) e em um texto mais ensaístico e corrido – tentaria o cinema de Claudio Assis traduzir de forma naturalista uma realidade brutal, velada e quase que determinista, através de uma estética de sensações e sentidos dilatados, expressionista? Ou seria esse, um naturalismo falso, engessado, criado com único intento de carregar outra intenção, esta mais complexa, referente ao próprio ofício de Assis no cinema? Seria este um autor que representa a perversão através de uma imagem ou um autor que constrói uma imagem para alcançar tal perversão?
Tentando me fazer mais claro, pego de exemplo um ponto comum nos filmes de Assis, bem fácil de visualizar: a forma como este representa o sexo. Em rigor de primeiras impressões, as personagens de Assis são sempre movidas por ímpetos viscerais, instintivos, inerentes a todas elas e totalizantes; são bestas, de condição animalesca, com razão e moral débil, e não podem
se dissociar a isto, “o ser humano é estômago e sexo”, como afirma o estandarte central de “Amarelo Manga”. O sexo, por sua vez, é representado com cunho negativo, violento e explosivo, assim como outros impulsos que tomam por completo suas personagens, são estes manifestações carnais de uma índole bestial intrínseca ao ser humano.
Retratando um plano de fundo marginal, seja de forma cosmopolita ou agrária, através das classes mais baixas, Claudio Assis vincula o afloramento dessa bestialidade humana com uma realidade sociocultural decadente, que escolhe para descrever e desmistificar a imagem comum do nordeste brasileiro. Em sua filmografia não se vê o usual cangaço, o bumba-meu-boi, o acarajé e a tapioca; mas Recife em sua periferia central ou em um sertão muito além da seca e da fome. Dessa forma, Assis tende a percepção do publico a ideias bem específicas: estes seriam filmes-retrato naturalistas, embasados na reprodução de uma realidade documental ainda que bastante estilizada, e na representação de um ser humano determinado por sua condição de espécime e pelo ambiente no qual esta inserido.
Mas, seja de forma intencional ou não, o cinema de Claudio Assis esta repleto de dilemas, de ambiguidades e, principalmente, de inversões que acabam por denunciar esse “algo além”, essa outra face de seus filmes: um pilar que se ergue de maneira contrária ao então entendimento que se tem de “Amarelo Manga” e, principalmente, de “Baixio das Bestas”.
Uma inversão muito clara se dá na maneira que Assis constrói seus filmes; referente ao próprio sentido do mise en scène, ao sentido da narrativa – entre a situação que se passa em cena e como ela é representada. Nos filmes de Claudio Assis, ocorre uma desarticulação entre o sentido daquilo que é encenado e como toda a cena é desenhada. Se por um lado temos um roteiro que preza certo naturalismo da bestialidade crua e imoral do ser humano, através de um discurso negativista da instintividade e violência, Assis nega e desconstrói esse discurso. Utilizando, e muito, a fotografia como principal muleta para essa inversão de sentido, o diretor reconstrói, ou melhor, inverte o sentido da narrativa idolatrando a imagem, buscando a luz mais poética, erguendo belas composições iconográficas, gestuando com vivacidade, expressividade e beleza estética em cenas de misoginia, estupro, violência e decadência moral. Quase como uma câmera que tenta ao máximo se distanciar de uma realidade debilitante, Assis cria um falso naturalismo, um retrato violado; este busca uma beleza, ou ainda, desenha uma beleza disfarçada ou uma feiura embelezada. Uma orgia de bestas, mas
uma orgia festiva.
Dessa grande ambiguidade de sentidos, exprimimos também a poética subentendida e a duplicidade de sentido mais atraente, a meu ver, nos filmes de Assis: a culpa. A paixão triste, o fervor envergonhado dessas personagens que, por não compreender a natureza exata de seus impulsos, traduzem estes ímpetos sexuais em atos de explosão violenta. Não buscam necessariamente o prazer carnal, mas um escape, algo que os faça esquecer do mundo que os cerca e do horror que os preenche; assim como a câmera de Assis, que também tenta virar o rosto, maquiar a feiura, se distanciar e enganar a si mesma. Se uma personagem é currada, a câmera enquadra a ação a partir das sombras, se outra é agredida brutalmente, o enquadramento é do alto, distante.
Os atos desviantes e autodestrutivos da narrativa e das personagens se encontram em um processo cíclico de culpa e negação; a bestialidade se diz bela e natural. Ou vira o rosto, alimentando um remorso violento. Dessa forma, os filmes submetem sua lógica naturalista mais uma vez a uma condição contrária. Esse retrato da impulsividade instintiva e natural do homem não é mais o mesmo; a raiz desses impulsos sexuais não é mais tão evidente e se perde em meio a um emaranhado de inversões de sentidos, de culpa e remorso disfarçados. Desejos que condizem muito mais a uma realidade multifacetada e complexa do ser, contrária à somente uma e única manifestação unidirecional do cerne humano.
Outro aspecto importante de se pontuar – enquanto tentamos compreender esses conceitos erguidos pelo próprio autor – é a casualidade forjada da narrativa; os diálogos casuais, as interpretações livres, as personagens representadas em localidades muito icônicas, às vezes ate exclusivas a uma ou um grupo de personagens. Se por um lado o diretor busca recriar um cotidiano, uma condição que inseri suas personagens em palanques factuais, Assis o faz de forma muito cênica, caricatural e farsesca. Novamente, o diretor constrói um discurso descritivo e naturalista e o desconstrói simultaneamente e por excelência. Assim, Claudio de Assis coloca suas personagens em pequenos palcos dentro de seus filmes, para que possam atuar livremente e interpretar suas realidades cênicas e alegóricas, enquanto rege a câmera e a luz em função de relatar tanto essas vidas perdidas entre o real e o sonho, quanto esses filmes que não conseguem ou não querem
deixar de ser somente filmes.
Filmografia (Longas metragens):
Amarelo Manga
Baixio das Bestas
Febre do Rato
Premiações:
Melhor Filme Ficcao no Festin Lisboa e no Festival Paulínia, por “Febre do Rato”
Premio de Melhor Primeiro Trabalho no Festival de Havana, por “Amarelo Manga”
Tigre de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, por “Baixio das Bestas”
Premio de Melhor Filme e Premio dos Críticos no Festival de Cinema de Brasília, por “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”
Extraclasse:
Entrevistas - Na Contracampo
– Na C7nema
– No SescTV
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